O Goblin que Lembrou do Céu
A primeira coisa que Kael sentiu ao voltar a existir foi fome.
Não era uma fome humana, dessas que fazem o estômago se dobrar em silêncio e a cabeça ficar leve. Era uma ordem. Um sino de ferro batendo atrás dos olhos. Um mandamento atravessando ossos que não eram seus: devore ou desapareça.
Ele abriu os olhos para um teto de pedra negra, úmido, coberto por raízes que pulsavam como veias. O ar cheirava a mofo, sangue velho e fumaça de gordura queimada. Quando tentou gritar, saiu apenas um guincho rouco. A mão que levou à boca era pequena, cinzenta, de dedos compridos e unhas tortas. Não havia pele humana ali. Não havia a cicatriz antiga no polegar direito. Não havia sequer o corpo que ele lembrava ter usado por vinte e três anos.
Kael se arrastou para trás até bater contra um osso enorme. Do outro lado da caverna, criaturas verdes e cinzentas disputavam pedaços de carne crua em volta de uma fogueira fraca. Goblins. A palavra veio com terror e reconhecimento, mas nenhum deles pareceu estranhar sua presença. Um filhote maior o empurrou com o ombro. Outro riu, mostrando dentes podres.
— Grin caiu de novo — zombou uma fêmea velha, com uma orelha rasgada. — Se cair mais uma vez, vira sopa.
Grin. Era assim que chamavam aquele corpo. Não um nome. Um som de desprezo.
Kael tentou se levantar. As pernas finas tremiam. Na memória, a última noite de sua vida humana piscou como vidro quebrado: chuva no asfalto, faróis brancos, o celular vibrando com uma mensagem que ele não chegou a ler, o peso de uma caminhonete virando o mundo de lado. Depois, nada. Depois, aquela caverna.
Uma sombra cobriu a fogueira. O maior dos goblins entrou carregando um rato de pedra quase do tamanho de uma criança. Tinha pele verde-escura, braços grossos e uma corrente humana presa ao pescoço como troféu. Os outros se afastaram.
— Chefe Ruk trouxe caça — ele rosnou. — Quem não lutou, não come.
A frase acendeu algo no ar. Kael viu, por um segundo, fios vermelhos saindo do cadáver do rato e entrando na boca dos goblins que salivavam. Não era visão. Era instinto escrito no sangue daquele corpo. A Lei da Fome. Poder não era dado. Era arrancado.
Ruk jogou a carcaça no chão. Uma perna rasgada rolou até perto de Kael. Ele recuou, enojado. O corpo de Grin, porém, avançou sozinho, tão desesperado que a razão quase se apagou. Kael fincou as unhas na pedra até sangrar.
— Não — sussurrou, e a palavra saiu torta. — Eu ainda sou eu.
O goblin de orelha rasgada o ouviu. Aproximou-se com um graveto, cutucando seu peito.
— Grin fala como humano?
Ruk virou a cabeça. Seus olhos amarelos estreitaram. Naquele instante, Kael entendeu a primeira regra daquele mundo: fraqueza chamava dentes. Diferença chamava lâminas.
Antes que Ruk atravessasse a caverna, um uivo rasgou os túneis. A fogueira tremeu. Um dos sentinelas apareceu cambaleando pela entrada, metade do rosto arrancado. Atrás dele, algo baixo e comprido se moveu na escuridão. Um lobo de ossos, com costelas expostas e uma chama azul no lugar do coração, invadiu o covil.
Os goblins se espalharam em pânico. Ruk rugiu ordens, mas o monstro já estava entre eles. Mandíbulas brancas fecharam sobre um pescoço. Sangue verde respingou na parede. Kael caiu de costas, o mundo reduzido a patas, dentes e gritos.
O lobo virou para ele. A chama azul em seu peito pulsou. Kael viu a própria morte pela segunda vez em menos de uma noite. Então sua mão encontrou o osso enorme atrás de si. Um fêmur rachado, pesado demais para Grin, leve demais para salvar alguém.
Quando o lobo saltou, Kael não golpeou a cabeça. Mirou a chama. O osso entrou entre as costelas abertas e quebrou algo delicado. O monstro caiu sobre ele, esmagando seu peito, mordendo o ar a centímetros de seu rosto.
A fome gritou.
Kael tentou resistir. Resistiu por um segundo. Talvez dois. Então cravou os dentes no núcleo azul. Dor e gelo explodiram em sua boca. Lembranças que não eram suas passaram por ele: neve, caça, lua, matilha, fome. O mundo se inclinou.
Quando acordou, o lobo estava morto. O fêmur continuava em sua mão. E no fundo de sua visão havia palavras vermelhas, não escritas, mas compreendidas.
Eco adquirido: Faro de Ossos.
Custo: uma memória humana pequena.
Kael levou a mão à cabeça. Tentou lembrar o nome da rua onde morava. Havia chuva. Faróis. Mas o nome tinha sumido, arrancado como uma página.
Do outro lado da caverna, Ruk o observava. Não havia gratidão em seu rosto. Havia cálculo. Medo. E ódio.
Kael apertou o osso. A fome diminuiu, mas não desapareceu. Agora ela tinha voz. E, no fundo dessa voz, havia algo antigo sorrindo.

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