A Sacerdotisa na Jaula
Três ciclos depois, humanos desceram às cavernas.
Vieram com lanternas de cristal, botas de couro branco e espadas finas encantadas com fogo pálido. Não marchavam como caçadores famintos; marchavam como gente limpando sujeira. Kael os sentiu antes de vê-los. Ossos tratados com sal sagrado. Aço polido. Medo escondido sob perfume de igreja.
Ruk ordenou fuga para os túneis inferiores. Goblins eram covardes por reputação e sobreviventes por necessidade. Mas os humanos não vieram apenas matar. Trouxeram gaiolas. Redes de prata. Correntes com símbolos solares.
— Capturam vivos — Morga cuspiu. — Arena ou laboratório. Talvez os dois.
Kael viu a primeira jaula quando rastejou por uma fenda acima do salão principal. Havia goblins presos, sim. Havia também uma garota humana ajoelhada, mãos atadas por uma corrente de luz. Cabelos castanho-claros colavam no rosto sujo. A túnica branca estava rasgada, mas o símbolo bordado no peito ainda brilhava: uma chama dentro de um olho.
— Traidora — disse o cavaleiro que a guardava. — A Igreja decide o que merece piedade, Liora. Você não.
Liora ergueu o rosto. Tinha dezessete ou dezoito anos, talvez. Os olhos verdes estavam cansados, mas não quebrados.
— Piedade que precisa de permissão não é virtude. É vaidade.
O cavaleiro a golpeou com o cabo da espada. Kael sentiu os dedos apertarem a pedra. Não a conhecia. Não devia nada a humanos. Ainda assim, a cena abriu nele uma ferida que a fome não sabia nomear.
Korr, ao seu lado, sussurrou:
— Deixa. Humano mata humano. Bom para nós.
Kael quase concordou. Então viu Varr, sem perna, sendo arrastado para uma gaiola. Varr chamava seu nome de goblin, Grin, como quem chama uma parede para não cair.
A estratégia nasceu do medo. Kael não era forte o bastante para vencer cavaleiros em combate aberto, mas escaravelhos de ferrugem ainda batiam contra a barreira de pedras no túnel leste. Bastava abrir o caminho. Bastava transformar uma caçada em desastre.
— Korr, você corre mais rápido do que pensa?
— Não.
— Hoje vai correr.
Ele mandou Korr atrair dois guardas. Sika cortou as cordas das lanternas. Kael quebrou a parede de contenção com o fêmur de lobo, agora reforçado por placas de ferrugem em seu braço. Os escaravelhos explodiram no salão como uma maré vermelha.
Gritos humanos se misturaram a gritos goblins. Kael saltou sobre uma gaiola, arrancou a tranca com as unhas endurecidas e libertou Varr. Uma espada branca veio por trás. Liora, ainda acorrentada, estendeu as mãos e murmurou uma prece curta. A luz não atacou Kael. Atacou a sombra sob seus pés, puxando-o para o lado. A lâmina passou onde sua cabeça estava um instante antes.
— Você... me salvou? — ele perguntou, sem tempo para esconder o espanto.
— Você parece ser o único aqui com um plano — ela respondeu. — Estou investindo.
Kael riu. Foi um som feio, goblin, mas verdadeiro.
Juntos, improvisaram uma fuga impossível. Liora não podia usar magia ofensiva enquanto a corrente sagrada prendia seus pulsos, mas podia alterar luz, criar sombras falsas, deslocar reflexos. Kael usou faro, carapaça e violência. Korr roubou chaves. Sika matou um guarda pelas costas e tremeu depois, odiando o que fizera.
No fim, os sobreviventes escaparam por um rio subterrâneo. Ruk abandonou metade do covil. Morga desapareceu nas sombras, levando crianças goblins. Kael carregou Varr nas costas até a água ficar rasa.
Liora caminhava ao lado dele, a corrente ainda brilhando.
— Você não age como goblin — ela disse.
— E você não age como santa.
— Ótimo. Santos morrem cedo.
Quando alcançaram uma gruta de cristais negros, Kael quebrou a corrente dela usando toda a força nova dos braços. O metal sagrado queimou sua pele. A marca ficou no pulso esquerdo, uma cicatriz branca em formato de elo partido. Ele tentou esconder a dor. Liora viu mesmo assim.
— Qual é o seu nome? — ela perguntou.
Kael olhou para as próprias mãos monstruosas. Grin era um insulto. Kael era uma vida perdida. Nenhum dos dois cabia inteiro.
— Kael — respondeu por fim. — Por enquanto.
Liora assentiu, como se entendesse que nomes também eram feridas.
Atrás deles, no escuro do rio, algo enorme abriu os olhos. A fuga fizera barulho demais. E Nhar-Khûm tinha coisas mais antigas que goblins.

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