O Caderno da Avó
O caderno estava dentro de uma caixa de sapatos, no fundo do armário da avó, embrulhado em três camadas de plástico-bolha e uma carta que ninguém tinha aberto em vinte e três anos.
Yumi só foi encontrá-lo porque o apartamento novo era pequeno demais pra guardar mais do que o essencial — e a mãe tinha jogado a caixa no canto da sala com um "cuida disso quando puder, filha, eu não tenho espaço emocional pra mais um objeto da tua avó" que era simultaneamente um favor e um sumiço.
O caderno tinha capa de couro falso, gasto nos cantos, e uma presilha de metal que não fechava mais. Na primeira página, uma caligrafia inclinada e redonda que Yumi não reconhecia de nenhum parente:
*"Para quem encontrar: isto não é meu. Mas é de alguém. Toma cuidado."*
Abaixo, com outra caneta, num garrancho de criança:
*"Pra mim mesma — se eu esquecer. NÃO ESQUECE."*
Yumi riu sozinha, no chão do apartamento, com uma caixa de pizza vazia do lado e a luz do corredor entrando pela porta entreaberta. A avó sempre foi dramática. O caderno provavelmente era um diário antigo, daqueles de adolescente. Ela ia fechar, colocar de volta na caixa, e—
O cheiro do papel.
Era um cheiro antigo, de coisa guardada por muito tempo, mas também doce. Como papel novo. Como se alguém tivesse acabado de abrir a embalagem. Estranho. Yumi folheou.
Dentro, não tinha diário.
Tinha um mapa.
Um mapa desenhado à mão, com cidades que não existiam, rios que ela nunca tinha visto, e uma legenda no canto inferior direito: *Reino de Vael — Ano 0 da Fundação*.
Vael. Aquele nome.
Yumi fechou o caderno. Abriu de novo. Fechou. Abriu. O nome não ia embora. Vael era o nome do reino que ela tinha inventado aos 12 anos, no caderno velho da escola, durante uma aula de matemática, e que ela nunca tinha contado pra ninguém. Nem pra mãe, nem pra melhor amiga, nem pra terapeuta. Era o reino que ela tinha escrito, desenhado, sonhado, durante três anos inteiros, antes de desistir aos 15 e jogar o caderno da escola fora.
Este caderno era de 1998. Yumi nasceu em 2003. Sua avó morreu em 2019, antes de Yumi começar a desenhar.
Ela folheou mais, devagar. Cada página tinha um desenho, datado. *Vael, 1998. O Castelo do Rei. A Floresta dos Espelhos. A Ponte de Vidro.* Tudo que ela tinha inventado aos 12 anos, neste caderno, doze anos antes dela nascer. Cada página era uma cópia exata — linha por linha, sombra por sombra — do que ela ia desenhar cinco anos depois, na quinta série, sem nunca ter visto esse caderno.
E na última página, uma única frase, na mesma caligrafia inclinada da primeira:
*"Você vai entender quando chegar lá."*
Yumi fechou o caderno. Levantou do chão. Olhou em volta do apartamento. Olhou pro teto. Olhou pro caderno de novo.
"Eu preciso dormir mais", ela disse em voz alta, pro ninguém, e foi pra cama levando o caderno junto, sem conseguir largar, do mesmo jeito que uma criança leva um cobertor velho que não troca por nenhum outro do mundo.
No meio da noite, ela sonhou com um reino. Com um trono vazio. Com alguém de pé no trono, esperando.
Quando acordou, o caderno estava embaixo do travesseiro. E na última página em branco, onde antes não tinha nada, agora tinha um desenho que ela não tinha feito:
Um rosto. Olhando pra ela.
Era o rosto do herói que ela tinha inventado aos 14. O interesse amoroso ideal, loiro, olhos azuis, sorriso torto, com uma cicatriz fina cortando a sobrancelha esquerda.
Ela lembrava do nome dele. Tinha dado um nome a ele, anos atrás.
Arlén.

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