Vol. 1 Cap. 6 A Bruxa Rolante junho 3, 2026
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Meta 06/2026 (39,00%)Postado por miggigibe, ? Visualizações, Lançado em junho 3, 2026 Anterior ÍndicePróximo PDF
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Tradutor/Revisor: miggigibe
Depois de aceitar investigar o responsável pelos incidentes do letreiro e do vaso de flores, Monica seguiu direto para os jardins dos fundos. O letreiro usado no primeiro crime fora removido quando a cerimônia de entrada terminou, então provavelmente não havia mais pistas a encontrar por lá.
Por outro lado, os cacos do vaso ainda não tinham sido recolhidos. Pelo que parecia, continuavam nos jardins, exatamente no ponto onde haviam caído. Como ninguém costumava ir até ali, não havia risco de alguém sem relação com o caso ter entrado e alterado a cena.
Quando Monica passou pelo portão que dava acesso aos jardins antigos, os arbustos ao lado dela farfalharam e se moveram.
— Ei, Monica. Como está indo a missão de proteger o príncipe?
Nero saltou de dentro do mato e sacudiu as folhas presas ao pelo.
Monica se agachou e encontrou o olhar dele.
— Nero, o que eu faço?
— Certo. Sobre o quê?
— A pessoa que me protegeu do vaso ontem acabou sendo o príncipe…
Aquele desdobramento infeliz era culpa, acima de tudo, do fato de ela não saber como era o rosto da pessoa que deveria proteger.
Nero balançou a cauda e ergueu os olhos para Monica com uma expressão séria.
— Você é a guarda-costas dele, certo?
— …Uhum.
— Me corrija se eu estiver errado, mas não deveria ser ele a proteger você, certo?
Nero estava absolutamente certo. Monica começou a agitar as mãos sem rumo, tentando se defender em desespero.
— M-mas eu o protegi direitinho com a minha magia sem encantamento!
— Sim, sim. Então por que você veio aqui?
— Eles acham que eu estou trabalhando com a pessoa que derrubou o vaso… E disseram que, se eu quiser provar minha inocência, preciso encontrar o verdadeiro culpado…
Nero ficou em silêncio por longos segundos. Então ergueu os olhos para Monica com uma expressão de exasperação muito humana.
— Você é a guarda-costas dele, certo?
— …Sou.
— Me corrija se eu estiver errado, mas não é um bom sinal ser tratada como a assassina dele, é?
Monica não tinha resposta para aquilo.
— …Ah, eu não passo de uma Sábia que entrou pela lista de espera… Sou incompetente. Uma reclusa… Já quero voltar para a minha cabana — choramingou ela.
Nero soltou um suspiro.
— Você dá trabalho mesmo, mestra. Ei, anima essa cara. Quer que eu aperte suas bochechas com minhas patinhas?
— …Quero.
Monica fungou e levou Nero até o rosto. O gato ergueu as patas dianteiras e usou as almofadinhas para apertar as bochechas dela. A sensação macia permitiu que Monica recuperasse um pouco da calma.
Nero esperou até que ela parasse de chorar e então perguntou:
— Então você vai encontrar o culpado. O que fazemos primeiro?
— Uhum. Primeiro, quero descobrir de onde o vaso caiu.
O vaso não fora recolhido depois do incidente do dia anterior. Seus cacos continuavam espalhados pelo chão, na mesma posição de antes. Monica pegou alguns deles.
— …Parece que era um vaso grande, próprio para plantar várias mudas juntas. Era redondo, mais ou menos deste tamanho…
Ao dizer “deste tamanho”, ela formou um círculo com os braços.
As orelhas de Nero se mexeram enquanto ele olhava para Monica com desconfiança.
— Como você consegue saber o formato só pelos fragmentos?
Ela olhou para ele, confusa.
— Mas só isso já basta, não?
— Não!
— Ah — murmurou ela, inclinando a cabeça enquanto transferia os cacos de uma mão para a outra.
Só com o que conseguia empilhar em uma das mãos, Monica já podia estimar bem o peso do vaso. Observando a distribuição dos fragmentos, calculara o tamanho, o formato e o peso aproximados.
Não há terra nos cacos. Estava vazio. Ou nunca foi usado, ou foi limpo antes…
Imaginando o vaso antes de se quebrar, Monica ergueu lentamente a cabeça e olhou para o prédio da escola. A Academia Serendia tinha muitas sacadas adornadas com flores, então a maior parte delas era enfileirada com vasos. Na verdade, sacadas sem vasos eram bem raras. Fazia sentido que Felix tivesse pedido a investigação.
Ontem havia pouco ou quase nenhum vento. E, levando em conta a resistência do feitiço de vento que eu usei…
Monica mediu a altura do prédio com os olhos e calculou a velocidade de queda do vaso. Os parapeitos das sacadas eram um pouco altos, então teria sido difícil alguém arremessá-lo com força. Parecia razoável supor que a pessoa se inclinara sobre a grade e simplesmente o soltara.
O vaso caiu sobre a terra, o que deve ter amortecido um pouco o impacto. Mas os cacos ficaram tão pequenos e se espalharam por uma área grande…
Haveria uma margem de erro, mas a análise dos restos do vaso lhe dera uma ideia geral de qual sacada ele havia sido derrubado.
Ali. Quarto andar, segunda sacada a partir da direita.
Enquanto ela confirmava a posição da sala, Nero puxou a barra da saia de Monica com a pata dianteira.
— Monica, eu também quero entrar na escola.
— …Você não pode. Se encontrarem você, vão expulsá-lo.
— Até parece. Mesmo que me encontrem, eu sou charmoso demais para humanos bobos resistirem.
Talvez os amantes de gatos da academia ficassem mimando Nero, mas, se alguém rígido como o senhor Thornlee o encontrasse, ele com certeza o colocaria para fora.
— Você não pode, está bem? — repetiu Monica, antes de seguir em direção ao prédio da escola para investigar a sacada.
— Ah, o que você está fazendo aqui?
Enquanto Monica subia as escadas dentro do prédio, ouviu uma voz familiar vindo de baixo. Ela parou e se virou. Lana, a colega de turma que havia feito suas tranças mais cedo, começava a subir, com os cabelos cor de linho balançando.
O-o que eu faço? O que eu digo…? Preciso manter em segredo que me pediram para investigar a sacada, certo? Se eu disser só que estou fazendo uma tarefa… será que serve?
Monica ficou parada no lugar, olhou para baixo e começou a mexer os dedos. Sem uma desculpa inteligente, tudo que conseguia fazer era murmurar “um” e “ah”.
Lana olhou para ela, enrolando uma mecha de cabelo no dedo.
— Depois que você foi chamada à sala do conselho estudantil, não voltou mais. Eu fiquei preocupada.
— …Hã?
Uma colega de turma tinha se preocupado com ela. Só isso bastou para fazer o coração de Monica dar um pequeno salto. Antes que percebesse, sua expressão se suavizou. Cobrindo as bochechas com as mãos, ela disse, sem jeito:
— Um, bem… Eles me pediram para, hum, fazer uma tarefinha…
Enquanto o olhar de Monica vagava pelo corredor, Lana a observou, confusa. Provavelmente era estranho que um membro do conselho estudantil pedisse um favor a uma aluna recém-transferida como ela.
— Ah. Para onde você está indo? — perguntou Lana.
— Um… P-para o quarto andar. A segunda sala a partir do fim…
— Ah, então é a sala de música dois. Você vai querer vir por aqui.
Lana começou a descer as escadas de volta, fazendo um gesto para Monica segui-la. Por que estavam descendo? Elas não precisavam subir para chegar ao quarto andar? Monica achou estranho, mas seguiu a outra garota, que ergueu o queixo com orgulho.
— A esta hora, esse corredor fica cheio porque as turmas estão trocando de sala. É mais rápido ir por aqui.
Ela deduzira o quanto Monica lidava mal com multidões ou era apenas coincidência? De qualquer forma, Monica ficou extremamente grata pela sugestão.
— Obr… Obrigada, pff…
Ela havia se preparado para agradecer Lana, apenas para tropeçar nas palavras como sempre. Seu rosto ficou vermelho vivo.
Lana não conseguiu evitar uma risada.
— …Sala de toucador?
Aquilo não fazia muito sentido para Monica, mas, pelo visto, a Academia Serendia tinha vários toucadores onde as alunas podiam retocar a maquiagem. Mais uma vez, ela se lembrou de que aquela era uma escola para filhos da nobreza.
Não consigo me imaginar usando uma sala dessas…
Foi então que Lana parou de repente à sua frente. O olhar da garota estava fixo na escadaria leste. Embora supostamente fossem subir por ali até a sala de música, Lana encarava o patamar com uma expressão azeda. No patamar, algumas alunas conversavam. Uma delas parecia estar cercada pelas outras.
…Ah, aquela pessoa… Ela é…
No centro, de olhos aflitos e baixos, estava a garota de cabelos cor de avelã: Selma Karsh. Era a encarregada de saúde da turma, que fora verificar como Monica estava depois de ela ser levada à enfermaria. Ao redor da pequena Selma havia outras três alunas. A que parecia liderar o grupo, uma garota de cabelos cor de caramelo, tinha uma voz que se projetava acima das demais.
As outras duas garotas levaram os leques aos lábios e repetiram:
— Ah, que pena.
— Sim, que terrível para você.
Mas, embora dissessem essas coisas, seus lábios se curvavam em sorrisos desdenhosos atrás dos leques.
Lana, olhando para a líder de cabelos caramelo, murmurou com amargura:
— Aquela é a Caroline.
Aparentemente, Lana conhecia a garota, mas sua expressão deixava claro que a relação entre elas não era amigável.
— Ei, Selma. Minha família vai oferecer um baile em breve. Vou me certificar de convidar você!
— Oh! Que ideia maravilhosa, Lady Caroline! Afinal, as cicatrizes de um amor perdido só podem ser curadas por um novo amor!
— E seu noivado com Aaron já foi desfeito mesmo, não foi? Você deveria procurar outra pessoa, Selma. Alguém decente!
Diante da sugestão de uma das seguidoras, Caroline abanou o leque e riu enquanto observava o rosto de Selma.
— Então que tal meu tio, talvez? — disse ela. — Ele está procurando uma nova esposa. É mais de trinta anos mais velho que você, mas é bonito e rico.
Selma, àquela altura, não dizia nada. Apenas cerrava os punhos enluvados, permanecia calada e olhava para baixo.
Lana se voltou para Monica e sussurrou em seu ouvido:
— Melhor passar direto e não se envolver. Vamos, está bem?
Lana tomou a dianteira, subindo rapidamente as escadas, e Monica se apressou atrás dela. Quando Lana chegou ao patamar, disse a Caroline, que bloqueava a passagem:
— Poderia nos deixar passar?
— Oh? Ora, se não é Lana Colette, filha do novo barão. Com modos deploráveis, como sempre. Minha família tem posição muito mais alta e uma linhagem muito mais antiga que a sua, sabia? Eu esperaria que alguém como você ao menos me cumprimentasse direito.
Diante da provocação de Caroline, as sobrancelhas finas de Lana se ergueram.
— Eu não sabia que bloquear a escada para uma conversa interminável fazia parte dos bons modos de uma família de alta posição. De todo modo, poderia sumir logo da frente? Aff, até uma vaca fugida se mexe quando o dono puxa as rédeas… Ah, mas perdão. Seu traseiro provavelmente é tão pesado que você não quer se mover.
— Quem você chamou de vaca?!
Caroline, agora furiosa, ergueu a mão e empurrou o ombro de Lana. Lana soltou um pequeno grito e cambaleou. Como já estava perto do patamar, porém, não passou disso: um cambaleio.
Mas ela acabou esbarrando em Monica atrás dela, desequilibrando-a. Quando Monica percebeu, seu corpo já havia inclinado, e ela estava caindo pelo ar.
— Monica!
Lana se virou e estendeu a mão, mas não conseguiu alcançá-la.
Estou… caindo…
Naquele instante, os pensamentos de Monica começaram a correr a uma velocidade espantosa.
Se eu usar magia de vento aqui dentro, vão descobrir que sou maga. Devo criar uma barreira defensiva em volta de mim? Não, não posso. A queda pareceria antinatural demais… Então… Então eu…
Ela criou imediatamente uma barreira defensiva invisível sem entoar um encantamento, mas não em volta do próprio corpo. Em vez disso, usou-a para preencher os espaços formados pelos degraus.
Ao transformar a escada em um plano inclinado simples, ela não sofreria tanto dano mesmo que chegasse ao chão. Usando todo o controle preciso de mana que era considerado o melhor do reino, Monica estendeu a barreira pela escadaria — e foi sobre essa barreira que caiu.
Como havia calculado, por cair em uma superfície plana, não doeu tanto. Não doeu, mas…
Escadas tinham níveis diferentes. O caminho inclinado dela, não. Qual dos dois, então, produziria mais impulso?
…Nem era preciso dizer que a resposta era o segundo caso. E, como era de se esperar, Monica acabou rolando com rapidez e força impressionantes.
— Hii-yaaaaaaaaaaaaaa!
Foi um milagre ela não morder a língua na velocidade com que rolou escada abaixo. O impulso a carregou além dos degraus e pelo corredor, até ela colidir com um aluno que passava.
Monica soltou um grito abafado, que se sobrepôs a um grunhido baixo: a voz de quem quer que ela tivesse atingido. Com os olhos cheios de lágrimas, ela se levantou e começou a se desculpar sem parar com o aluno, que agora estava sentado no chão.
— Eu… Eu sinto muito, sinto muito, sinto muito, sinto muito!
A pessoa contra quem ela batera era um rapaz de cabelos prateados presos na parte de trás da cabeça. Monica já o vira uma vez, mas sua mente estava em pânico demais para processar isso naquele momento.
— Você se machucou? — perguntou ele, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar.
Monica, sem nem notar a mão, continuou se desculpando sem parar.
— Sinto muito! Sinto muito por incomodar!
— …
O aluno a observou em silêncio. Por fim, seus dedos se aproximaram da cabeça dela. Por reflexo, Monica cobriu a cabeça com as mãos para se proteger. Achou que ele fosse bater nela. Mas tudo que os dedos dele fizeram foi afastar delicadamente sua franja.
— Sua testa está um pouco vermelha. Você bateu? Está sentindo dor em mais algum lugar?
Monica soltou alguns sons incompreensíveis e só então percebeu que o rapaz não estava tentando atacá-la. Muito pelo contrário: ele estava preocupado com ela. Ela sentiu as pontas dos dedos dele em sua testa. Eram um pouco frias.
…? Magia de gelo? Mas ele não entoou nada… Espera, então a mana dele está vazando inconscientemente?
Enquanto Monica considerava essa possibilidade, Lana desceu correndo a escada em sua direção. Monica ficou aliviada por ter desfeito a barreira nos degraus tão depressa. Caso contrário, Lana teria escorregado e caído logo depois dela. Ela soltou um suspiro de alívio.
— Ei! V-você está bem?! — exclamou Lana.
— …Ah, eu… Sim… — Monica assentiu.
Lana soltou um longo suspiro de alívio. Ela também estivera preocupada com a segurança de Monica. Enquanto Monica se perguntava se deveria dizer obrigada por se preocupar ou desculpe por preocupar você, o rapaz de cabelos prateados interrompeu.
— Afinal, o que está acontecendo aqui? — perguntou ele, franzindo a testa.
Monica finalmente se lembrou de quem era o rapaz. Ele havia usado um feitiço de gelo para silenciar Aaron O’Brien quando ele causara uma cena.
— Esse é o vice-presidente do conselho estudantil, Lorde Cyril Ashley — sussurrou Lana em seu ouvido.
Fazia sentido. Aquele jovem devia ser o “vice-presidente preocupado demais” que Felix mencionara.
— Alguém aqui pode explicar o que aconteceu? — perguntou Cyril.
Caroline, que ainda estava no patamar da escada, desceu os degraus com passos tranquilos, exibindo um sorriso tranquilo e confiante.
— Lady Lana Colette estava brincando por aí e empurrou uma colega escada abaixo.
— O quê?! — gritou Lana, estarrecida.
Caroline não apenas não demonstrava culpa alguma, como também tentava jogar a responsabilidade em outra pessoa.
— Foi você que me empurrou! Contra a Monica!
— Oh?! Está tentando transferir a responsabilidade para mim? Que ousadia para uma filha de novos-ricos.
As duas garotas ao lado de Caroline concordaram. Reassurada, Caroline ergueu os cantos dos lábios e lançou a Cyril um olhar de baixo para cima.
— Naturalmente, Lorde Ashley, o senhor acreditará em mim, uma integrante da histórica e respeitada Casa Norn, em vez dessa garota recém-chegada, não é?
Lana rangeu os dentes diante das palavras de Caroline.
Monica sabia que, mesmo que nem ela nem Lana estivessem erradas, se alguém de posição mais alta dissesse que elas eram culpadas, aquilo seria tomado como verdade.
— …C-com licença…! — disse Monica, nervosa.
Os olhos de Cyril se voltaram para Monica, os braços agora cruzados. Talvez fosse apenas sua imaginação, mas o ar ao redor parecia ter esfriado. O olhar dele a fez se encolher e baixar a cabeça.
Aquele jovem estivera preocupado com ela depois que caiu da escada. Mas, se Monica acusasse Caroline de algo, ele provavelmente não ouviria. Ele era membro do conselho estudantil. Eles eram responsáveis por manter a ordem na academia. E aquela escola refletia a sociedade nobre, onde status social era tudo.
Não há nada que eu possa dizer para mudar isso…
Monica olhou resignada para Cyril, que estava diante dela. Mordeu o lábio.
Mesmo assim…
Se Caroline tivesse alegado não saber o que acontecera, se apenas se fingisse de inocente, Monica teria desistido e aceitado. Mas ela colocara a culpa em Lana. Se Monica não fizesse nada, Lana seria tratada como a causadora do incidente.
Seria acusada de um crime que não cometera.
Isso… eu simplesmente não posso permitir…
Monica abriu a boca. Seus lábios haviam perdido toda a cor.
Por favor, garganta, não me abandone agora!
Quase chorando, ela finalmente falou:
— E-eu só escorreguei e caí! Foi… foi só isso…!
Talvez não fosse capaz de acusar Caroline, mas ao menos podia tirar a culpa de Lana. Ela apelou a Cyril com todo o coração.
— Ninguém teve culpa… F-foi só eu sendo desastrada! Desculpe!
E então baixou a cabeça.
— Espere um pouco…! — exclamou Lana, insatisfeita.
Mas Monica a interrompeu depressa.
— Então! Um, agora está… está tudo bem! D-desculpem por, hum, causar essa confusão…!
Depois, acreditando que, sem a vítima presente, a situação se dissiparia, ela subiu as escadas correndo, os pés batendo ruidosamente nos degraus, e deixou a cena para trás.
Depois de subir as escadas quase voando, Monica parou para recuperar o fôlego. Àquela altura, praticamente arquejava ao respirar. O som de seus dentes batendo uns contra os outros era insuportável.
…Está tudo bem. Está tudo bem. Se eu aguentar, se eu não disser nada desnecessário, as coisas vão se resolver…
Ela limpou um pouco da sujeira na barra da saia, resultado da queda, e ajeitou as luvas que tinham saído do lugar. Por enquanto, queria se concentrar em procurar o assassino que estava atrás de Felix. O incidente do vaso fora claramente premeditado. Uma verdadeira tentativa de assassinato. Como guarda-costas dele, Monica não podia ignorar isso.
Mas por que o culpado está atrás do príncipe…?
Felix e os outros pareciam acreditar que um cúmplice de Aaron O’Brien, que cometera um delito, estava agindo movido por ressentimento. Para Monica, porém, aquilo não soava muito certo.
Aaron O’Brien dera a entender que tivera um cúmplice. Então por que esse cúmplice não tentaria se livrar de Aaron primeiro, para garantir que ele não falasse?
É como uma equação incompleta, cheia de lacunas…
Ela precisava de mais informações para preencher esses espaços. Disse a si mesma que, por enquanto, bastava reunir essas informações. Quando chegou à sala que procurava — a sala de música dois, no quarto andar do prédio leste —, parou.
Podia ouvir as notas de um piano vindas de dentro. Alguém estava tocando. Será que a pessoa ficaria brava se ela entrasse sem pedir? Ainda assim, queria realizar a investigação o quanto antes.
Depois de um conflito interno, bateu de leve na porta e a abriu.
A sala de música era elegante, como um pequeno salão, e continha um piano refinado. O piano era um instrumento das classes altas, algo muito distante da realidade dos plebeus. Sentada diante dele, com os dedos deslizando sobre as teclas, estava uma aluna de cachos loiros. Pela cor do lenço em seu colarinho, era uma aluna do terceiro ano do curso avançado.
A garota parou de tocar e disse a Monica sem desviar o olhar:
— Estou usando esta sala no momento. Se precisa de algo, por favor volte mais tarde.
— U-um, desculpe. A sacada, hum… Eu, er, deixei algo nela…
A jovem loira apenas folheou a partitura e então disse, quase para si mesma:
— Seja rápida, por favor.
Monica murmurou um agradecimento e correu para a sacada. Como esperava, havia vários vasos por ali. Eles também se pareciam com o que fora derrubado nos jardins dos fundos.
…Três vasos já têm plantas, e…
Apenas um dos vasos estava vazio, virado de cabeça para baixo perto da borda da sacada. Monica se agachou para observá-lo. Ela o pegou, mas não havia nada dentro. Era realmente apenas um vaso vazio, virado de cabeça para baixo.
Por que este vaso estaria de cabeça para baixo, enquanto os outros estão na posição normal?
Ela devolveu o vaso à posição original. O vaso virado estava imundo, e a sujeira grudou em suas luvas. Monica tentou limpar um pouco, mas o restante ficou preso ao tecido. Teria que lavar as luvas assim que voltasse ao dormitório. Não tinha um par reserva.
Preocupada com as luvas sujas, olhou para a grade da sacada. Como fora feita para impedir que pessoas caíssem, era bem alta. Monica, pequena e fraca, teria dificuldade para erguer um vaso pesado por cima dela e derrubá-lo dali.
Espere. E se…?
Monica ficou algum tempo pensando. Por fim, o som do piano cessou. Ao voltar a si, ela olhou para a sala de música. A aluna que estivera sentada ao piano agora a encarava com frieza.
Ao observar melhor, Monica percebeu que a garota era extremamente bonita. Mesmo sem ter muito senso estético para distinguir pessoas bonitas de pessoas comuns, Monica conseguia dizer que ela era uma verdadeira beldade.
Monica se encolheu diante do impacto daquelas feições deslumbrantes, e a garota fechou a tampa do piano.
— Vou voltar para a aula. Gostaria de trancar a sala.
— Ah, s-sinto muito! Já estou saindo!
Monica trancou a porta que ligava a sala de música à sacada. Então, enquanto a bela aluna fechava a tampa do piano, Monica perguntou timidamente:
— Um, esta sala… costuma ficar trancada?
— Para usar uma das salas de música, é preciso pegar a chave na sala dos professores. Para usar esta sala, você precisa apresentar uma solicitação para a sala de música dois.
Monica murmurou um agradecimento e se apressou para fora da sala de música.
Os olhos âmbar da garota permaneceram fixos nas costas de Monica até ela desaparecer pelo corredor.
Os registros contábeis, absurdos e bagunçados como estavam agora, eram de fato o presente de despedida que Aaron O’Brien deixara para o conselho estudantil. Enquanto Felix revisava em silêncio os livros cheios de alterações, Elliott, que conferia recibos, comentou em tom casual:
— Vamos fazer uma aposta. Quanto tempo até a esquilinha admitir a derrota? Eu digo três dias.
— Você não gosta dela?
Era verdade que ele tinha pouca fé em Monica Norton, mas a atitude de Elliott para com ela era óbvia.
Elliott fungou.
— Não, não gosto. Ela não parece nobre, não importa por qual ângulo se olhe… Uma pessoa dessas frequentar esta academia já é presunção da pior espécie.
Ele falava casualmente, mas havia um desgosto real em sua voz. Olhando para Felix, baixou o tom e disse:
— Não suporto plebeus que não sabem o próprio lugar.
— Sim, eu sei.
A maioria das garotas que frequentavam a Academia Serendia vinha de famílias nobres, mas ainda havia muitas da baixa nobreza ou de classes inferiores. Em geral, desde que alguém pudesse pagar a mensalidade, podia se matricular. Mas muitos, incluindo Elliott, não viam essa situação com bons olhos.
— Ainda assim — comentou Felix —, você não acha que está sendo cruel demais? Quantas salas dão para os jardins dos fundos? Duvido muito que uma aluna recém-transferida como ela consiga investigar todas.
— Ainda é melhor do que nós fazermos isso e sermos notados. E quanto a você sair escondido do quarto à noite… bem, isso não me parece comportamento digno de um príncipe.
As palavras de Elliott vinham cheias de espinhos enquanto ele estreitava os olhos caídos na direção de Felix. Provavelmente não estava satisfeito com o fato de Felix ter agido sozinho.
Felix, porém, esquivou-se do olhar crítico com uma expressão fria e deslizou uma pena de escrever sobre a página à sua frente.
— Quero lidar com todos os problemas da academia da maneira mais discreta possível. Afinal, não queremos que o Duque Clockford intervenha.
O Duque Clockford era o avô materno de Felix e um dos nobres mais influentes do reino. A Academia Serendia estava sob sua jurisdição. Se um grande incidente ocorresse ali, seria como jogar lama no rosto do Duque — algo que Felix jamais poderia permitir. Mesmo que outros o chamassem de cãozinho do Duque, Felix nunca, jamais poderia desobedecê-lo.
— E, acima de tudo… Como Felix Arc Ridill, não posso permitir que pensem que me falta competência para lidar com uma situação dessas.
Quando Elliott estava prestes a responder, ouviu-se uma batida suave na porta da sala do conselho estudantil. Depois que Felix disse “Por favor, entre”, a porta se abriu lentamente, revelando uma garota pequena.
Era Monica Norton. A nova aluna do segundo ano do curso avançado. Uma garota mirrada, sem nada na aparência ou no comportamento que se encaixasse no molde da Academia Serendia.
Sentindo alguma pena da garota depois das provocações de Elliott, Felix a chamou com gentileza.
— Olá, Lady Norton. Teve algum progresso?
Haviam se passado apenas algumas horas, então era improvável que houvesse algum progresso. Felix, desde o início, não esperava nada daquela garota.
Mas essa garota pequena, essa aluna recém-chegada, mexeu os dedos e disse com uma voz muito, muito baixa:
— Eu sei… quem é o culpado.
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