Vol. 1 Cap. 5 A Bruxa Silenciosa fala com entusiasmo sobre a proporção áurea junho 2, 2026
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Meta 06/2026 (39,00%)Postado por miggigibe, ? Visualizações, Lançado em junho 2, 2026 Anterior ÍndicePróximo PDF
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Tradutor/Revisor: miggigibe
Quando Monica tinha cerca de cinco anos, implorara ao pai que lhe desse certo objeto. Aquilo que ela tanto queria era uma fita métrica.
Monica aprendera números e aritmética básica mais rápido que as outras crianças de sua idade. Aos cinco anos, graças ao pai estudioso, já sabia como calcular áreas e volumes.
Por isso, pedira uma fita métrica. Queria descobrir a área e o volume das coisas ao seu redor.
O amigo de seu pai, que por acaso estava presente na ocasião, ficou completamente atônito ao ouvir o pedido. Mas, quando o pai de Monica ouviu o motivo, sorriu com gentileza e lhe deu uma fita métrica de presente, exatamente como ela havia pedido.
De posse do objeto que tanto desejava, Monica se perdeu medindo todos os móveis da casa, além do tamanho dos próprios braços e pernas, e também dos braços e pernas do pai.
— O mundo está repleto de números — o pai de Monica costumava lhe dizer. — Os seres humanos também são assim. Nossos corpos são feitos de uma quantidade imensa de números.
Sempre que usava a fita métrica para descobrir a área ou o volume de algum objeto próximo, Monica sentia nos ossos o quanto o pai estava certo.
Para a pequena Monica, aquilo era uma fonte inesgotável de alegria e felicidade.
…Eu andava por aí com aquela fita métrica até as marcações ficarem gastas demais para serem reconhecidas, não era?
Enquanto seu cérebro ainda meio adormecido se demorava num sonho da infância, Monica virou-se na cama. A luz da manhã que entrava pela janela fez seu rosto se contrair. Lentamente, ela se levantou. O quarto no sótão não tinha cortinas, então o sol da manhã entrava sem qualquer impedimento.
Assim que saiu da cama, a primeira coisa que Monica fez, antes mesmo de cuidar da aparência, foi tirar a cafeteira da gaveta. Depois, usou um feitiço sem encantamento para criar água e encheu a cafeteira.
Dizia-se que a água criada por magia não era adequada para beber por causa da mana que continha.
O corpo humano só conseguia reter certa quantidade de mana. Assim, consumir muita água rica em mana levaria ao envenenamento por mana. Era por isso que Monica normalmente tirava água de um poço.
Mas um pouquinho não faria mal. Como integrante dos Sete Sábios, Monica conseguia armazenar mais mana que pessoas comuns. Não era fácil para ela sofrer envenenamento por mana.
Ela encheu a cafeteira com a água criada, moeu alguns grãos de café e os colocou nela. Então tirou um pequeno tripé metálico, pôs a cafeteira sobre ele e usou outro feitiço sem encantamento para criar fogo. Como o conjurador precisava controlar tanto a intensidade do calor quanto a posição da chama, até uma chama pequena como aquela exigia um feitiço intrincado e bastante controle.
Nero, deitado na cama em sua forma de gato preto, olhou para ela com leve exasperação.
— Usar suas habilidades só para fazer uma xícara de café? Isso não é meio desperdício?
— B-bem… eu não posso simplesmente usar a cozinha sem pedir, então… — protestou Monica em voz baixa, despejando o café da cafeteira na xícara.
Nero saltou para a mesa de Monica e a encarou com seus olhos dourados.
— Monica, quero provar isso aí.
— Sério? Por quê?
— Li num romance recentemente. Bartholomew, o protagonista, bebe café em silêncio. É muito elegante e refinado.
Monica pensou por alguns instantes, então pegou um pouco do café da xícara com uma colher e o colocou diante de Nero. Café provavelmente não era a melhor coisa para dar a um gato, mas Nero não era um gato normal, então ficaria bem. Provavelmente.
— Tem certeza? — avisou ela. — É bem amargo.
— Quando uma criatura perde o senso de aventura, ela definha.
— …Isso também veio de um livro?
— Com certeza. Dustin Gunther é o maioral.
Depois de citar um dos romancistas mais populares da capital, Nero deu uma lambida rápida no café da colher. No mesmo instante, todos os pelos de seu corpo se eriçaram.
— Hogyah-rah-phah!
Ele soltou uma exclamação peculiar, nem humana nem felina, e começou a rolar por cima da mesa.
Como ela esperava, aquilo não parecia ter agradado ao paladar dele. Nero soltou uma respiração rouca, como um guerreiro recém-retornado da beira da morte, e então ergueu o olhar para Monica.
— Sim, isso certamente estimulou meu senso de aventura. Seu paladar deve estar muito estragado para beber isso e ainda gostar.
— …
Monica o ignorou e tomou um gole do próprio café.
Quente e amargo ao passar por sua língua, o líquido despertou de vez sua mente enevoada.
De repente, as palavras do pai lhe vieram à memória: “Primeiro, elimine o desnecessário. Depois disso, os números restantes serão extremamente simples.”
…Mas o que é desnecessário? pensou ela. Por exemplo, o café da manhã certamente não era desnecessário para ela. Era importante. Mas, para quem odiava café, aquele costume talvez parecesse inútil. Se fosse uma fórmula, eu resolveria na hora. Como era difícil discernir o que era desnecessário para uma pessoa.
Ainda tomando o café, Monica olhou para a fita e as frutas silvestres sobre a mesa. Ela nunca havia se importado com penteados. Antes do dia anterior, teria dito com certeza que fitas eram desnecessárias.
As frutas silvestres também. Monica não gostava muito de comer, então, se não fosse por elas, provavelmente teria dado de ombros e passado o almoço em branco. Pegou uma e a colocou na boca. Normalmente, nem sentia o gosto da comida que comia, mas, por algum motivo, daquela vez quis saboreá-las com cuidado e atenção. Por isso, concentrou-se no sabor antes de engolir.
— …Ei, Nero… Existe alguma coisa que você considera uma “necessidade”?
— Hm? O que é isso? Filosofia logo cedo? …Sim, eu conheço a palavra filosofia. Sou incrivelmente inteligente e estiloso ou não sou?
— …Sim, você é incrível — disse Monica, sem entusiasmo.
Nero apontou a pata direita diretamente para ela.
— Isso! — disse ele. — Para mim, suas palavras de elogio são uma necessidade enorme. Então me elogie mais! Louve-me! Escreva uma balada para mim, na verdade! Ou um romance! Ou pinte um retrato. Deixe algo para as gerações futuras, para que conheçam minha grandeza!
A última parte definitivamente era pedir demais, mas saber que suas palavras de elogio eram necessárias trouxe a Monica uma pequena alegria.
— Além disso, é bom aproveitar coisas que não são necessárias — Nero continuou. — “A vida humana é cheia de coisas desnecessárias; então, por que não aproveitá-las?” Essa também é uma citação de um dos romances de Dustin Gunther.
Para Monica, que precisava se esforçar ao máximo apenas para viver, aproveitar o desnecessário parecia uma tarefa monumental. Ainda assim…
— Eu… vou tentar — disse Monica, pegando a fita sobre a mesa.
Ao fazê-lo, lembrou-se de outra coisa que o pai lhe dissera, a voz gentil dele se repetindo em sua mente.
São os desafios mais difíceis que se tornam os mais agradáveis, Monica.
Lana Colette estava sentada em seu lugar, com o queixo apoiado na mão, folheando um livro didático.
Quando encontrou Lana, Monica conseguiu caminhar até ela com as pernas tremendo.
— Eu… Eu, hum…
— O que você quer? — Lana manteve o rosto voltado para a página, movendo apenas os olhos para encarar Monica. Quando a viu, porém, eles se arregalaram. — O que aconteceu com o seu cabelo?!
O penteado de Monica não era o que Lana fizera nela no dia anterior, nem eram suas tranças habituais. Em vez disso, o cabelo no topo de sua cabeça estava armado de maneira antinatural, com duas tranças presas à força em volta. Era, para dizer o mínimo, vanguardista.
— Eu, bem, eu queria, hum, fazer igual a você…
— Suas tranças simples teriam ficado melhores!
Monica gemeu baixinho quando Lana gritou com ela. Baixou os olhos e enfiou as mãos nos bolsos. Então tirou a fita que havia pegado emprestada no dia anterior e a estendeu nervosamente para Lana.
— …Aqui… Hum, então… obrigada… obrigada por ontem…
Lembrando-se do treino com Nero na noite anterior, Monica conseguiu espremer o agradecimento para fora. Ainda soava como se estivesse prestes a morrer, mas conseguira dizer a frase inteira.
No entanto, quando Lana olhou para a fita na mão de Monica, soltou uma fungada desdenhosa e virou o rosto.
— Não preciso disso. Já saiu de moda — declarou de forma brusca, como se a conversa tivesse acabado ali.
Normalmente, Monica teria recuado na hora, com lágrimas nos olhos. Mas, em vez disso, manteve-se firme no lugar e arrancou de si as próximas palavras com desespero.
— Você… você poderia… m-me ensinar… a fazer como ontem, p-por favor?
Ela tropeçara na última palavra. Ficou vermelha até as orelhas e, como estava olhando para baixo, não viu os cantos da boca de Lana tremerem enquanto a garota fazia o possível para segurar o riso.
— Bem, acho que você não me dá escolha! Sente-se aí, está bem? — disse Lana com altivez, indicando com o queixo a cadeira ao lado.
Monica puxou a cadeira como fora instruída e se sentou.
Lana desfez rapidamente o cabelo de Monica.
— Sério, como é que você conseguiu inventar algo tão estranho?! É inacreditável! Ei, você tem um pente?
— N-não… — respondeu Monica, fraca.
Lana puxou o cabelo dela.
— …Estou surpresa que você tenha tido coragem de me pedir para ensinar sem nem ter trazido um pente.
— M-m-m-me… desculpe!
Lana suspirou, exasperada, e então tirou o próprio pente. Era feito de prata, com um intrincado trabalho vazado no cabo. Observando melhor, pequenas joias estavam incrustadas nele, formando delicados desenhos florais.
— Até pouco tempo atrás, pentes de ourivesaria com motivos de pássaros estavam na moda — comentou. — Mas os desse tipo estão muito mais em alta agora. A quantidade menor e o tamanho reduzido das joias deixam o conjunto muito fofo. Os artesãos de Anmel são especialmente habilidosos, então, se você quiser o melhor, precisa comprar um de Anmel…
Então, por algum motivo, Lana deixou a frase morrer e passou a pentear o cabelo de Monica em silêncio.
Por que ela parou de falar de repente? perguntou-se Monica, intrigada.
Então Lana sussurrou algo que só ela poderia ouvir.
— É entediante, não é? O assunto de que estou falando, quero dizer.
Os olhos de Monica se arregalaram. Lana parecia emburrada. Monica virou-se para olhar para ela.
Lana fazia um bico, e parecia magoada.
— Minha família comprou o título, afinal. Eu sei que você acha as coisas que eu digo vulgares e indignas de atenção.
— H-hum… bem… — Balançando os braços sem saber o que fazer, Monica mexeu a boca freneticamente. — Eu… eu também ouço muito que sou entediante… Bem, porque eu, hum, fico falando sobre números o tempo todo…
Ela conseguia falar sobre qualquer coisa relacionada a equações matemáticas e fórmulas mágicas. Mas acabava esquecendo de prestar atenção à reação de quem a ouvia e falava por tempo demais. Louis Miller já a repreendera por isso mais de uma vez. Às vezes, o belo mago torcia sua orelha sem misericórdia, sorria e perguntava: “Já voltou a este mundo, minha colega Sábia?” Só de lembrar, ela começou a tremer.
Lana soltou uma risada curta.
— Você é tão esquisita.
— E-eu sou…?
— Sim. Agora olhe para a frente.
Com movimentos experientes, Lana trançou as laterais do cabelo de Monica. Depois que fez as duas tranças, juntou-as ao restante do cabelo e as amarrou com cuidado usando a fita.
— Pronto, terminado. Não é tão difícil.
— U-uau… Foi tão rápido… Então as posições e os ângulos das tranças são a chave? Não, espere, eu também preciso considerar a proporção entre as diferentes mechas de cabelo…
— Não é sobre números! Isso se aprende com as mãos. Agora desfaça e tente de novo sozinha.
Os olhos de Monica se arregalaram diante das palavras de Lana, e ela exclamou:
— O quê?! Mas ficou tão bonito… E-eu preciso mesmo desfazer…?
Quando Lana ouviu “mas ficou tão bonito”, sua boca tremeu. O elogio parecia tê-la deixado de bom humor. Então ela pigarreou, fazendo pose de irmã mais velha.
— Você não vai aprender se não fizer sozinha. Se errar e o tempo acabar, eu refaço, então tente.
— Ugh… É como desfazer uma equação limpa e concluída para reescrevê-la com números aleatórios…
— Que tipo de comparação é essa…?
No instante em que Lana sorriu, metade exasperada e metade satisfeita, uma comoção tomou conta da sala.
Ainda era cedo demais para o professor ter chegado. Perguntando-se o que estava acontecendo, Monica olhou na direção do ruído. Lá, encontrou um aluno que reconhecia: o rapaz de cabelos castanhos e olhos caídos.
É-ele…
Elliott Howard, o membro do conselho estudantil que acusara Monica de ser uma intrusa nos jardins antigos no dia anterior. Ele olhou ao redor da sala e, quando seus olhos encontraram os dela, sorriu.
Monica engasgou de medo e se escondeu atrás de Lana. No entanto, já era tarde demais. Com os sapatos de couro estalando no chão, Elliott seguiu direto até a carteira dela. Monica imediatamente saltou de trás de Lana e se escondeu atrás de uma cortina próxima.
Elliott zombou daquele comportamento excêntrico.
— Não acredito que você era mesmo aluna da academia. Na verdade, ainda não estou totalmente convencido. Fugir assim que vê o rosto de alguém? Nenhuma lady decente faria uma coisa dessas. Entendi. Você é mesmo uma esquilinha tímida.
Tremendo, Monica olhou para Elliott entre as cortinas.
— E-eu sou h-humana…
— Se é humana, pelo menos saia daí.
— …
Hesitante, Monica saiu de trás das cortinas, e Elliott sorriu. Pelo menos, sua boca formava um sorriso. Seus olhos caídos, porém, estavam frios.
— Vim porque preciso de uma coisa sua — disse ele. — Pode vir comigo sem fazer escândalo?
— E-eu tenho, hum, aula…
— O professor responsável por esta turma é o senhor Thornlee, certo? Falarei com ele. Além disso, é só o segundo dia do novo semestre. Eles não vão cobrir nada tão importante. — Elliott caminhou alguns passos para longe, então virou a cabeça para olhar para ela. — Sou membro do conselho estudantil. Se quiser se dar bem nesta academia, é melhor fazer o que eu digo, novata.
Se Monica gritasse não, caísse em lágrimas e fugisse, não seria diferente de ontem. Então, em vez disso, respirou fundo e assentiu de leve.
— T-tudo bem.
Elliott Howard nem tentava esconder o desprezo por ela, e suas palavras vinham cheias de espinhos. Ainda assim, provavelmente era melhor do que certo Sábio que ela conhecia, que lançaria magia ofensiva contra ela enquanto sorria. Pelo menos, foi isso que disse a si mesma enquanto forçava as pernas trêmulas a se moverem.
Elliott parou diante de uma porta grandiosa no quarto andar. Toda a Academia Serendia era luxuosa o bastante para rivalizar com as mansões de nobres de alto escalão, mas aquela porta era especialmente esplêndida.
Elliott bateu de leve e abriu a porta sem esperar resposta.
— Entrando.
— Seja bem-vindo — respondeu uma voz suave de dentro. Uma voz que Monica já ouvira antes.
Elliott manteve a porta aberta e indicou com os olhos que Monica entrasse. Apertando os punhos diante do peito, ela avançou.
— C-com licença.
O interior era espaçoso, com um tapete escarlate estendido no chão. Todos os cômodos daquela academia tinham acabamento extravagante, incomparável ao de uma escola comum, mas aquele era especialmente suntuoso. Os detalhes das mesas, cadeiras e colunas eram incrivelmente intrincados. A sala do diretor fora decorada de forma opulenta, com fileiras de pinturas e esculturas, mas aquele lugar evocava outro tipo de elegância.
Perto do fundo da sala, um aluno estava sentado a uma escrivaninha de aspecto oficial. Seu cabelo era loiro-mel e brilhava à luz da janela, e seus belos olhos eram de um azul-claro com apenas um toque de verde.
— Peço desculpas por chamá-la tão de repente, Lady Monica Norton — disse ele.
— Conseguiu comer seu almoço depois daquilo, esquilinha?
— Hum, obri… é, obrigada p-por ontem!
Eu disse! Consegui dizer direito. O objetivo de Monica para aquele dia tinha sido agradecer a Lana e ao jovem do dia anterior. Ela saboreou em silêncio a alegria de ter realizado as duas coisas tão depressa.
O jovem inclinou a cabeça de leve.
— Perdão? Fiz algo que merecesse agradecimento?
— Hum, você recolheu minhas frutinhas e… e me levou até a enfermaria… — disse Monica, torcendo as mãos.
O rosto do jovem se iluminou em compreensão.
— Não precisa me agradecer por isso. É dever do presidente do conselho estudantil proteger os alunos.
Que pessoa gentil, pensou Monica, admirada, antes de processar o que ele acabara de dizer. Se não estivesse enganada, ele tinha dito algo bastante importante. Muito lentamente, ela ergueu o olhar de novo e repetiu:
— Presidente… do conselho estudantil?
— Isso mesmo. — O jovem assentiu com um sorriso. Ergueu-se em silêncio e ofereceu a Monica uma reverência elegante. — Creio que ainda não me apresentei. Sou Felix Arc Ridill, septuagésimo quinto presidente do conselho estudantil da Academia Serendia. É um prazer conhecê-la, Lady Monica Norton.
— …
Então o aluno gentil do dia anterior era, na verdade, o presidente do conselho estudantil. Ou seja, o segundo príncipe — e a pessoa que Monica deveria proteger. Quando compreendeu tudo, seu primeiro pensamento foi…
— H-hum… — balbuciou ela.
— O que foi?
— …Se o senhor é príncipe, por que, hum, saiu escondido do dormitório ontem à noite?
Elliott, que esperava junto à porta, se sobressaltou e olhou para Felix.
— Espere, você saiu escondido ontem à noite? Essa é a primeira vez que ouço isso.
Felix desviou com habilidade do olhar agudo de Elliott e sorriu para Monica.
— Não tenho muita certeza do que você está falando.
Felix respondeu à pergunta inocente de Monica com naturalidade, sem deixar o sorriso vacilar.
— Ontem foi lua nova, não foi? — A insinuação era clara: estaria escuro demais para enxergar qualquer coisa da janela dela.
Quando Monica tentou responder, Felix, de volta à escrivaninha, entrelaçou os dedos e apoiou o queixo sobre as mãos.
— Então você viu alguém sair do dormitório masculino no meio da noite? Poderia me dizer como essa pessoa era? Teremos de reforçar a segurança da academia.
— E-estava usando capuz, então não vi o rosto. Só tive um breve vislumbre de, hum, cabelos loiros e a parte de trás da cabeça… senhor.
— Bem, temos muitos alunos loiros na academia.
No instante em que ouviu esse contra-argumento, uma chama se acendeu dentro dela. Talvez fosse aquele impulso particular dos estudiosos de provar sua tese. Diante de um Felix perfeitamente relaxado, Monica fechou os punhos e declarou:
— A-a pessoa encapuzada de ontem tinha o mesmo, hum, físico que você.
— Não seria estranho alguém ter um físico parecido com o meu, seria?
— Não era só parecido. Era a proporção áurea!
— …Perdão?
Uma vez que seu coração fora incendiado, Monica parou de perceber o entorno e se perdeu nos detalhes de sua demonstração. Era um mau hábito. Felizmente, havia um quadro-negro móvel para conferências encostado na parede. Monica desenhou nele a figura simples de uma pessoa, depois traçou um retângulo ao redor da cabeça.
— Eu confio na minha capacidade de estimar com precisão o comprimento de qualquer coisa que vejo. A razão entre a largura e a altura da sua cabeça é de 1 para 1,618. Esse número é extremamente próximo da proporção áurea, que os seres humanos percebem como a mais bela. Para ser precisa, a proporção áurea é 1 para 1,61803398… e continua, mas vou omitir o restante.
Sem lançar um único olhar para sua plateia atônita, Monica desenhou uma linha horizontal passando pelo umbigo da figura, dividindo-a basicamente em metade superior e inferior. Acima da linha, escreveu 1; abaixo, escreveu 1,618.
— Mesmo quando alguém está vestido, é possível usar o comprimento das pernas para calcular a posição aproximada do umbigo. Tanto o senhor quanto a pessoa da noite passada produzem a mesma proporção áurea quando o corpo é dividido dessa maneira entre parte superior e inferior. Mas espere! Se usarmos 1 para a parte inferior, então a altura total, somando as partes superior e inferior, chega a 1,618. A proporção áurea de novo, quase como se tivesse sido calculada de propósito! Essa propriedade é extremamente rara! Se o senhor se medisse com uma fita métrica, veria que minha teoria está… correta…
Foi então que Monica finalmente emergiu de sua defesa apaixonada. Sua respiração ainda estava irregular, mas o transe havia se quebrado.
Eu… O que eu acabei de…? Ainda segurando o giz, ela olhou sem jeito para Felix e Elliott.
Elliott permanecia imóvel, de olhos arregalados.
Felix, por outro lado, calculava algo com calma, murmurando para si mesmo.
— Da última vez que tiraram minhas medidas, o número era… — Depois de alguns instantes, seu rosto se iluminou. — Uau, é mesmo 1 para 1,6.
— …
— Já elogiaram minha aparência antes, mas nunca desse jeito — disse ele, não com sarcasmo, e sim como se achasse tudo muito divertido.
Monica levou as mãos à cabeça por instinto. Aaaaaah! Eu fiz de novo…
Ela costumava perder a noção do que acontecia ao redor quando lidava com equações e fórmulas mágicas. E, toda vez que isso acontecia, Louis acabava torcendo sua orelha, mas… Não acredito que fiz isso logo na frente da pessoa que deveria proteger!
De todo modo, precisava continuar em bons termos com Felix. Desesperada, tentou pensar em uma desculpa. Louis já dissera que ela era péssima nessa tarefa específica. Então pensou, pensou… e pensou demais. E o que acabou saindo foi isto:
— A espiral áurea, que se baseia na proporção áurea, usa a sequência de números da cantiga “Os Porcos do Velho Sam” para determinar cada raio! Nessa sequência, a razão entre pares sucessivos de números se aproxima cada vez mais da proporção áurea. É uma sequência linda… Em outras palavras, “Os Porcos do Velho Sam” é incrível… Não, espere, eu quis dizer que suas proporções são incríveis! Senhor!
Se Louis estivesse ali, teria perguntado que diabos aquela desculpa deveria resolver antes de recorrer à violência.
Ao ouvir Monica elogiar um membro da realeza e uma canção sobre porcos no mesmo fôlego, Elliott estreitou os olhos e gemeu.
— Que diabos é “Os Porcos do Velho Sam”?
Elliott não parecia reconhecer a popular cantiga infantil, mas Felix bateu o punho na palma da mão ao se lembrar.
— Ah, a cantiga infantil… Entendi. Então é disso que vêm aqueles números.
Felix parecia honestamente impressionado, e Elliott estreitou os olhos caídos para encará-lo.
— Então a esquilinha provou que você estava rondando o lado de fora do dormitório à noite durante uma investigação disfarçada.
— Sim, embora infelizmente não tenha dado frutos.
— Cyril desmaiaria se ouvisse isso.
— Eu sei. Por isso eu esperava que você guardasse segredo.
A julgar pela conversa dos dois, Felix estivera agindo como isca para atrair algum tipo de criminoso — e sem contar a ninguém.
C-como guarda-costas dele, eu não posso ignorar isso… pensou ela. Mas será que Felix explicaria se alguém de fora, como ela, perguntasse? Enquanto Monica se preocupava, Felix e Elliott continuaram discutindo.
— Vamos, Elliott, ela claramente é uma esquilinha inofensiva. Além de não ter tomado nenhuma atitude depois de me ver ontem à noite, ela deixou isso escapar aqui sem querer. Não tem como ser uma assassina.
— Mas tudo isso também poderia ser uma manobra para nos fazer baixar a guarda. O incidente do vaso ontem foi antinatural demais. É perfeitamente possível que Lady Norton aqui tenha conduzido você até o ponto onde o vaso cairia.
Monica soltou um guincho de surpresa. Sentiu ainda mais suspeitas sendo lançadas sobre ela, e não podia simplesmente ficar parada e deixar aquilo continuar.
— H-hum, então aquele vaso de ontem… não caiu por acaso? — perguntou, nervosa.
Elliott lançou um olhar para Felix, esperando sua decisão.
Felix sorriu e cruzou as pernas novamente na cadeira.
Aaron O’Brien era um nome de que Monica se lembrava. Era o aluno de cabelo preto que gritava no corredor dois dias antes enquanto os outros o continham. Isabelle lhe dissera o nome dele.
— O conselho estudantil preferiria não tornar público um constrangimento interno. Esperávamos manter o desvio do tesoureiro O’Brien em segredo dos outros alunos, dizer a eles que ele adoecera subitamente e precisava deixar a escola, e encerrar tudo em silêncio. Infelizmente, um pequeno incidente aconteceu logo depois.
Foi no dia anterior à cerimônia de abertura. Felix havia proferido seu julgamento contra Aaron O’Brien naquela mesma manhã e trabalhava com os demais membros do conselho para resolver a bagunça deixada por ele.
O aspecto mais problemático era revisar os registros contábeis. Aaron alterara várias entradas ao desviar verbas. Depois, para esconder essas alterações, mexera em outros números, repetindo o processo diversas vezes. Como resultado, os livros-caixa estavam em péssimo estado.
Todos os membros do conselho estudantil trabalhavam juntos para revisá-los, mas corrigir todos aqueles números levaria bastante tempo. Naquele dia, não avançaram muito. O tempo, no entanto, continuava passando, e, com a cerimônia de abertura marcada para o dia seguinte, não podiam dedicar todo o expediente à revisão dos livros.
Por volta das três da tarde, o orientador do conselho estudantil, senhor Thornlee, apareceu e disse:
— Precisamos preparar as cerimônias de abertura e de entrada de amanhã.
Felix teria de comandar os preparativos das cerimônias e precisava ir. Também precisaria da ajuda dos outros alunos homens para mover objetos. Por isso, deixou a revisão dos registros com uma das secretárias, Bridget, e o oficial de assuntos gerais, Neil, levando consigo os outros dois: o vice-presidente Cyril e Elliott, o outro secretário, até o salão onde a cerimônia seria realizada.
As cadeiras dos novos alunos já tinham sido enfileiradas, e um letreiro pendente fora instalado perto da entrada. Como a decoração estava quase concluída, Felix e os outros apenas fariam as verificações finais. Ainda assim, enquanto percorriam a lista, notaram pequenos problemas aqui e ali, como cadeiras faltando, que precisavam ser resolvidos.
— Vamos colocar as fitas dos novos alunos em caixas separadas por turma. Assim o dia correrá com mais tranquilidade do que se…
Enquanto Felix dava instruções a Elliott, o senhor Thornlee olhou para o alto, acima da cabeça de Felix, e subitamente empalideceu.
— Cuidado! — gritou.
Um instante depois, Cyril chamou:
— Senhor! — Sua voz quase se transformou em um grito.
Ao ouvir o senhor Thornlee e Cyril, Felix se moveu antes mesmo que sua mente processasse o que estava acontecendo.
Alguns segundos depois, algo despencou no lugar onde ele estivera: o letreiro pendurado acima da entrada.
Esse letreiro fora preso à grade de proteção da janela do segundo andar do salão de cerimônias por fechos metálicos. Em outras palavras, alguém havia alcançado os fechos pela janela e os soltado.
Eles ergueram os olhos e viram que a janela do segundo andar estava entreaberta. Na janela, chegaram a avistar uma figura por apenas um instante, antes que ela recuasse rapidamente.
— …E esse é o resumo da situação.
Depois de ouvir a explicação de Felix, Monica estava pronta para desmaiar. Ele chamara aquilo de “pequeno incidente”, mas, para qualquer pessoa normal, fora literalmente uma tentativa de assassinato.
N-não acredito que um incidente desses aconteceu logo no dia em que cheguei aqui…! Sentindo o sangue fugir do rosto e os lábios tremerem, ela olhou para Felix e Elliott.
Felix mantivera seu sorriso sereno durante toda a explicação, mas Elliott estava carrancudo. A reação dele era a adequada naquela situação. Havia algo errado com Felix. Como conseguia sorrir com tanta calma quando era a vida dele que estava em risco?
O-ou talvez membros da família real estejam acostumados com esse tipo de coisa, pensou Monica num canto da mente.
— H-hum, vocês descobriram quem derrubou o letreiro…?
— Infelizmente, a pessoa escapou de nós. Não é, Elliott?
— …Sinto muito por isso. Não consegui pegá-la — disse Elliott, emburrado, antes de acrescentar alguns detalhes.
Quando o letreiro caiu, três pessoas estavam com Felix: o senhor Thornlee, Cyril e Elliott. Como era o único professor presente, o senhor Thornlee confiou a proteção de Felix a Cyril e foi com Elliott perseguir o culpado. Infelizmente, não conseguiram encontrar nada, mesmo depois de se separarem para vasculhar uma área maior.
Felix soltou um suspiro tranquilo e deu de ombros.
— Aconteceu poucas horas depois de concluirmos que Aaron O’Brien era culpado. É natural presumir que os dois eventos estejam relacionados, não é? Mas, quando o letreiro caiu, O’Brien estava confinado no dormitório masculino. Isso significa que outra pessoa deve tê-lo derrubado. — Ele estreitou levemente os olhos azuis e lançou a Monica um olhar significativo. — O’Brien insinuou que tivera um cúmplice no desvio. É muito provável que essa pessoa tenha sido quem derrubou o letreiro.
Felix interrogara Aaron, mas, àquela altura, Aaron havia perdido o controle e só conseguia murmurar: “É culpa deles… Culpa deles…”, repetidas vezes. Não parecia estar em condições de falar sobre o cúmplice.
Enquanto Elliott explicava isso, seus lábios se torceram num sorriso sarcástico.
— Então armamos uma armadilha para fazer o cúmplice se revelar durante o intervalo do almoço de ontem.
— …Ah, então foi por isso que vocês estavam nos jardins antigos…?
— Isso mesmo.
Se Felix estivesse sozinho nos jardins vazios ao fundo da propriedade, haveria grande chance de o culpado tentar outro ataque. O plano era Elliott se esconder. Eles esperariam o vilão atacar Felix e, então, Elliott o conteria. Infelizmente, Monica apareceu por puro acaso.
— Vou ser honesto. Acredito que você esteja trabalhando com o culpado e tenha guiado o príncipe de propósito até o ponto exato onde o vaso cairia.
Apesar de ter vindo à academia para proteger o segundo príncipe, Monica agora era tratada como uma assassina. Se Louis Miller ouvisse aquilo, provavelmente riria, diria Ah, tudo o que você faz é tão inesperado, ha-ha-ha, e então fecharia os punhos calejados.
E-eu não posso ser expulsa logo depois de me infiltrar! Se Louis descobrir, vai ficar furioso comigo… E, se eu fracassar na missão, talvez sejamos executados…
Monica balançou a cabeça com tanta força que quase a arrancou do pescoço.
— E-eu não… fiz isso…
— Então onde você estava e o que estava fazendo por volta das três da tarde, dois dias atrás, quando ocorreu o incidente no salão de cerimônias?
Mexendo os dedos, Monica voltou pelas próprias lembranças. Três da tarde, dois dias atrás. Ela estava limpando o quarto e dizendo a Nero que desejava ser um gato.
— N-naquele dia, eu estava no dormitório feminino… limpando meu quarto…
— Há alguém que possa confirmar isso?
— …Não.
O único que estava com ela era Nero, e não dava exatamente para levar um gato falante como testemunha.
Enquanto baixava os olhos, Elliott a encarou como se olhasse para uma criminosa condenada. O olhar dele era como um punho se fechando ao redor de seu coração, e sua respiração ficou curta e rasa. Estava tão nervosa que o ar não entrava nos pulmões. Um suor terrível começou a se espalhar lentamente dentro de suas luvas.
Quando a tensão no ar se tornou espessa o bastante para ser cortada com uma faca, Felix interveio e repreendeu Elliott.
— Não aprovo que você intimide pequenos animais.
— Mas você tem que admitir que esta esquilinha é suspeita — disse Elliott, com a voz cheia de espinhos. Então pareceu pensar em algo, e os lábios se curvaram num sorriso maldoso. — Já sei. Vamos fazer assim, então. Esquilinha, você vai encontrar o culpado que derrubou o letreiro e o vaso. Então acreditarei na sua inocência.
Os olhos de Monica se arregalaram diante da proposta de Elliott.
— Hum, você quer que… eu faça isso?
— Nós dois chamaríamos atenção demais. Para ser franco, não queremos transformar isso num escândalo maior do que já é. Nem os outros membros do conselho sabem das nossas investigações secretas.
— Hã?! — exclamou Monica, com os olhos ainda mais arregalados, virando-se para Felix.
Felix sorriu com certa resignação e assentiu.
— De fato. Nosso vice-presidente, Cyril, em especial, é um tanto preocupado demais.
Fazia sentido. Quando Nero e Monica viram Felix na noite anterior, ele estava tentando atrair o suposto assassino — e sem sequer ter contado a Elliott.
Mas Felix também não fora atacado naquela noite, fosse porque o vilão era cauteloso demais para morder a isca, fosse por algum outro motivo desconhecido.
Se não encontrassem o culpado logo, o caso poderia acabar sem solução. Felix e os outros também queriam evitar isso.
— Então? Vai fazer? Vai procurar o culpado? — perguntou Elliott, com um sorriso maldoso que praticamente dizia: Você vai fracassar de qualquer jeito.
Monica fechou as mãos em punhos diante do peito. Ela não gostava nem um pouco daquilo. Se dependesse dela, teria se trancado no quarto do dormitório e ficado lá. Ainda assim, era responsável por proteger Felix.
— Eu vou… eu vou… eu vô fa-fazer… — respondeu, lamentável.
Elliott sorriu de modo perverso e se virou para Felix.
— Você ouviu.
Felix olhou para Monica com um sorriso calmo e indecifrável.
— Ah? Nesse caso, será um prazer trabalhar com você, Lady Monica Norton. Anterior Próximo 🛒
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