Vol. 1 Cap. 3 A pressa com que o diretor esfrega as mãos maio 31, 2026
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Meta 06/2026 (39,00%)Postado por miggigibe, ? Visualizações, Lançado em maio 31, 2026 Anterior ÍndicePróximo PDF
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Tradutor/Revisor: miggigibe
A Academia Serendia recebeu esse nome em homenagem a Serendine, a Deusa da Luz e uma das Reis dos Espíritos, para receber sua proteção divina. O cajado e a coroa de lírios da deusa serviam de inspiração para o emblema da escola.
Originalmente, não era costume que membros da realeza e da nobreza enviassem seus filhos à escola. Com o avanço dos tempos, porém, cada vez mais crianças nobres passaram a frequentar instituições de ensino. A Academia Serendia era uma delas.
Hoje existiam muitas escolas, incluindo internatos e escolas para moças, mas a Academia Serendia detinha a honra de ter sido a primeira escola frequentada por um membro da realeza de Ridill.
O Reino de Ridill possuía três escolas de elite em particular: a Academia Serendia, frequentada por membros da família real; o Instituto Minerva de Formação de Magos; e a Universidade Vinculada ao Templo.
Entre elas, a Universidade era a mais voltada ao direito. As áreas de especialidade de Minerva eram a magia e as artes mágicas. Já a Academia Serendia se destacava no ensino de todas as outras disciplinas.
A academia tinha de tudo: instrutores de primeira linha, uma coleção imensa de livros e instalações e equipamentos dignos de seus alunos nascidos na nobreza.
Ingressar na academia exigia uma taxa de matrícula e uma doação consideráveis, mas os estudantes ganhavam uma enorme vantagem ao procurar trabalho na corte após a formatura. Entre nobres, poder se dizer ex-aluno da Academia Serendia era um símbolo de status.
Nem era preciso dizer que aqueles que haviam participado do conselho estudantil da academia eram vistos com especial admiração. Sobretudo agora que o segundo príncipe, Felix Arc Ridill, ocupava o cargo de presidente do conselho. Tornar-se membro significava ter uma chance de ser escolhido como seu auxiliar próximo.
De fato, em circunstâncias normais, entrar para o conselho estudantil garantia um futuro seguro.
…Então por que isto está acontecendo?!, gritou Aaron O’Brien em pensamento. Aaron era o atual tesoureiro do conselho estudantil da Academia Serendia.
Ele estava parado no centro da sala, cercado pelos demais membros do conselho estudantil. Até o dia anterior, todos eles eram seus companheiros. Agora, porém, olhavam para ele como se fosse um criminoso.
A tensão tomava conta da sala do conselho estudantil, mas havia uma pessoa sorrindo: um jovem sentado na cadeira da presidência, apoiando a bochecha no punho — o presidente do conselho estudantil e segundo príncipe do Reino de Ridill, Felix Arc Ridill.
— Muito bem.
Duas palavras de Felix bastaram para mudar por completo o clima da sala. Os ombros de Aaron saltaram. Felix lhe dirigiu um sorriso, o sorriso de um santo profundamente compassivo.
— Nossa investigação encontrou vestígios de adulteração — começou Felix. — Mais precisamente, desvio de verbas do orçamento. E isso não aconteceu apenas uma ou duas vezes… Não é mesmo?
Sua voz era gentil e extremamente calma, mas tão fria que parecia uma faca sendo cravada no coração de quem ouvia.
Aaron permaneceu em silêncio. O secretário, um jovem de cabelos castanhos e olhos ligeiramente caídos chamado Elliott Howard, lançou-lhe um olhar cortante.
— Então você perdeu a conta de quantas vezes desviou fundos? — disse ele. — …Porque, só pelo que encontrei, já passa de trinta.
O tom de Elliott era displicente, mas seu olhar estava cheio de desprezo enquanto observava Aaron.
Depois de Elliott, a outra secretária, uma bela garota loira chamada Bridget Greyham, cobriu a boca com um leque e comentou:
— É bastante coisa, considerando que isso cobre apenas o orçamento geral do ano passado. Mas ele não desviou também fundos do orçamento especial?
Diante das palavras de Bridget, um rapaz baixo de cabelos castanhos claros chamado Neil Clay Maywood, oficial de assuntos gerais do conselho, assentiu.
Diante de uma pessoa após a outra apontando seus crimes, Aaron estalou a língua. Como diabos eu vou lembrar quantas vezes fiz isso?! Seu cúmplice o havia avisado de que ele estava passando dos limites, mas, mesmo assim, ele nunca deveria ter sido descoberto.
Enquanto Aaron mantinha o silêncio, Felix, ainda com aquele sorriso gentil no rosto, voltou a falar.
— Nós o escolhemos para o conselho estudantil por recomendação de meu avô, o Duque Clockford.
Os membros do conselho estudantil eram nomeados pelo presidente. Havia vários que tinham usado dinheiro para cair nas graças de Felix e, por extensão, de seu avô, o Duque Clockford. Um dos que haviam oferecido uma quantia considerável era o pai de Aaron, o Conde Steil.
Foi por isso que o Duque Clockford ordenara a seu neto Felix que escolhesse Aaron para o conselho estudantil. Se ele ao menos tivesse cumprido corretamente sua função como tesoureiro, tanto seu futuro quanto o do Conde Steil estariam garantidos.
Infelizmente, a Casa Steil contribuíra um pouco demais para o Duque Clockford, o que a deixara à beira da ruína financeira. Como resultado, a mesada de Aaron fora drasticamente reduzida, e ele começara a desviar fundos do conselho estudantil para ter dinheiro com que se divertir.
Droga, droga, droga…!
Aaron rangeu os dentes, e os olhos de Felix se estreitaram. Ao pronunciar seu julgamento, a voz do príncipe era incrivelmente suave e gelada. Ele pretendia encurralar Aaron devagar e prolongar seu tormento.
— Eu não posso aplicar uma punição maior que a expulsão. No entanto, meu avô provavelmente romperá todos os laços com o Conde Steil.
Aaron sentiu o sangue sumir do corpo. Todos que estudavam naquela academia sabiam que, por trás do segundo príncipe, estava o nobre mais influente do reino: o Duque Clockford. E o duque era um homem frio, impiedoso e brutal.
— Ao que parece, seu pai buscava a confiança da Casa Clockford para conseguir empréstimos. Ah, que tristeza. Depois disto, o Conde Steil não conseguirá obter empréstimos de ninguém, e sua casa provavelmente cairá na ruína.
O rosto de Aaron ficou coberto de suor. Eu vou ficar bem, pensou ele. Eu sei. Eu sei que vão dar um jeito nisso!
Ele tivera um cúmplice esse tempo todo. Tinha certeza de que essa pessoa mexeria os pauzinhos e o tiraria daquela confusão.
Sim… Hm, ela vai, é…
Mas, quando tentou imaginar o rosto de seu cúmplice, percebeu que não conseguia. A princípio, achou que fosse apenas confusão causada pelo desespero atual, mas quanto mais tentava se lembrar, mais turvas suas memórias se tornavam. Seus pensamentos ficaram embotados. Sua cabeça rodopiava.
Por quê? Por que não consigo me lembrar?
Aaron O’Brien tivera um cúmplice. Tinha certeza. Quase certeza, ao menos. Eles haviam conspirado com ele em troca de metade dos ganhos.
E, no entanto, ele não conseguia lembrar o rosto desse cúmplice, nem sua voz, nem seu nome. Nada.
— Ah, ah, aaah…
Por algum motivo além de sua compreensão, a lembrança havia desaparecido por completo. A sensação era parecida com o medo que alguém sentiria ao ver um buraco aberto no próprio corpo.
Com o rosto encharcado de suor, ele segurou a cabeça latejante e começou a tremer sem controle. Seu medo intenso deu lugar ao pânico. Aaron estava a um passo de perder o controle. Então Felix, com aquele sorriso santo, desferiu o golpe final.
— …Você entende? A sua tolice causou a queda da Casa Steil.
Aaron ouviu algo se romper no fundo da mente. Ele perdeu o controle.
O interior de sua cabeça estava quente. Muito quente. Parecia que os vasos sanguíneos estavam sendo queimados por dentro. Ele se entregou ao calor e gritou, enquanto uma espuma começava a se formar em seus lábios.
— Calado, calado, calado! A família real não passa de… de cães de colo do duque!
Com todo o autocontrole perdido, Aaron saltou sobre a mesa num acesso de fúria e tentou agarrar Felix. Antes que pudesse tocar o príncipe, porém, um dos auxiliares de Felix que aguardava junto à parede entrou em ação e o conteve. Esse jovem de cabelos louro-platinados era Cyril Ashley, o vice-presidente do conselho estudantil.
Cyril entoou rapidamente um encantamento e então deu o comando:
— Congele!
No mesmo instante, os pés de Aaron foram cobertos por blocos de gelo.
Agora que havia imobilizado Aaron com magia de gelo, as feições bem delineadas de Cyril se retorceram em um olhar furioso.
— Como ousa! Insultos grosseiros e violência contra Sua Alteza Real… Você merece morrer mil vezes! Vou transformá-lo numa escultura de gelo e arremessá-lo pela janela!
O gelo que cobria os pés de Aaron começou a estalar enquanto subia por suas pernas. Naquele ritmo, ele de fato se transformaria numa escultura de gelo de corpo inteiro.
Mas, quando o gelo chegou aos joelhos de Aaron, Felix o interrompeu.
— Não cabe a você lidar com ele, Cyril.
Diante da ordem de Felix, Cyril interrompeu imediatamente o avanço de sua magia. Então inclinou a cabeça para o príncipe.
— …Excedi-me, senhor. Aceite minhas mais humildes desculpas.
— Você estava preocupado com a minha segurança, certo? Obrigado por me proteger.
Felix sorriu para Cyril antes de voltar o olhar para Aaron.
Seus olhos, de um azul-celeste com apenas uma gota de verde misturada, encararam Aaron sem piedade.
— Aaron O’Brien, você deverá permanecer confinado em seu dormitório até que a notificação oficial de sua expulsão seja entregue. Assim terá bastante tempo para refletir sobre o tamanho da sua idiotice, já que foi superado por um cão de colo do duque.
— Ugh — murmurou Aaron com os lábios trêmulos.
Suas memórias ficavam cada vez mais enevoadas. Ele sabia que tivera um cúmplice. Tinha certeza, mas não conseguia se lembrar… Não, não, não.
…Será que ele realmente agira sozinho?
Na carruagem a caminho da Academia Serendia, Monica estava perdida.
— O-o que eu faço, o que eu faço…?
Para ser mais precisa, o motivo de ela estar segurando a cabeça entre as mãos naquele momento tinha a ver com os quartos dos dormitórios femininos.
A Academia Serendia era um internato, e a distribuição dos dormitórios normalmente colocava duas pessoas por quarto. Mas Monica, que vivia numa cabana na montanha por medo de estar perto de outras pessoas, jamais sobreviveria dividindo um quarto com alguém.
Como se proteger o príncipe já não fosse problemático o bastante!
— Não precisa ser nada elegante… Por favor, só me deixem ficar num quarto no sótão…
A escola possuía quartos individuais, mas, ao que parecia, eles eram limitados a estudantes com notas excepcionais ou que tivessem feito doações significativas. Para dizer a verdade, pagar a doação exigida não seria tão difícil. Monica quase não havia tocado na renda que recebia como integrante dos Sete Sábios, então dinheiro não era o problema.
Mas, considerando sua história de fachada como Monica Norton, a excluída da Casa Kerbeck, certamente levantaria suspeitas se ela pagasse uma grande doação para garantir um quarto individual.
O problema estaria resolvido se ela dividisse um quarto com sua colaboradora nessa missão, Isabelle, mas a garota mais nova era aluna do primeiro ano do curso avançado. Os dormitórios normalmente colocavam juntas pessoas do mesmo ano, então Monica, como aluna do segundo ano, não poderia ficar com ela.
O que eu faço? O que eu faço?
Enquanto Monica tremia, ainda com a cabeça enterrada nas mãos, Isabelle ofereceu uma proposta confiante.
— Se são os dormitórios que a preocupam, minha irmã, tenho uma ideia. Permita-me resolver a questão de forma brilhante e digna de uma verdadeira vilã.
— U-uma verdadeira vilã…? — repetiu Monica, visivelmente confusa.
Isabelle sorriu.
— Pode deixar comigo!
Por fim, a carruagem chegou à Academia Serendia. O prédio era belo, assim como o Palácio Real de Ridill. Paredes brancas e telhado azul. Não tinha as torres pontiagudas do castelo, mas era decorado por toda parte com esculturas magníficas. Monica ergueu os olhos para ele, atordoada.
— Vamos? — perguntou Isabelle, conduzindo-a adiante.
Em vez de seguir para os dormitórios, porém, Isabelle foi até a sala do diretor. Se pedirmos uma reunião de repente, pensou Monica, tomada pela apreensão, o diretor não vai ficar irritado conosco?
Ao contrário de suas expectativas, o diretor aceitou o pedido de modo extremamente bajulador, esfregando as mãos o tempo todo.
A família de Isabelle, a Casa Kerbeck, era famosa. Na verdade, era uma das cinco principais casas nobres do interior do reino. Considerando o quanto haviam doado à escola, não era surpresa que o diretor fosse especialmente deferente com Isabelle.
— Ora, mas sejam muito bem-vindas, Lady Isabelle. Como sempre, tenho uma dívida eterna para com seu pai.
O diretor era um homem de meia-idade e usava os cabelos grisalhos penteados para baixo. Seu rosto largo estava coberto por um sorriso adulador enquanto conduzia Isabelle e Monica para dentro de sua sala.
Como convinha a uma escola para filhos da nobreza, o interior da Academia Serendia era ricamente decorado. Em especial, era evidente que a escola não havia poupado despesas na sala do diretor. As paredes eram adornadas com pinturas e esculturas que pareciam caríssimas.
Isabelle sentou-se, sozinha, no sofá diante do diretor, e então ordenou que Monica ficasse de pé atrás dela.
— Venho até aqui com um pedido para o qual muito gostaria de contar com sua ajuda, senhor diretor.
— Oh, sim, sim. Se houver qualquer coisa que a preocupe, farei tudo ao meu alcance para auxiliá-la.
Enquanto o diretor se inclinava suavemente para a frente, Isabelle tirou o leque e cobriu a boca com ele. Então soltou um suspiro que soava verdadeiramente melancólico.
— Ouvi dizer que os dormitórios da Academia Serendia acomodam duas estudantes por quarto… Eu sou uma garota muito delicada e sensível, e simplesmente não suportaria dormir no mesmo quarto que alguém que nunca conheci.
— Oh! Se é só isso, não precisa se preocupar. Prepararei um quarto individual digno da nobre filha do conde Kerbeck. E, agora que menciona, essa jovem senhorita é sua parente, não é? Devo preparar um quarto para ela perto do seu?
— Ora, mas que absurdo! O senhor a colocaria perto de mim?! — disse Isabelle, aproveitando a oportunidade para erguer a voz.
O diretor estremeceu de surpresa. Monica, que não havia sido informada do plano de Isabelle, também ficou chocada e não conseguiu evitar um gritinho, estremecendo no lugar.
— Só pode estar brincando! — continuou Isabelle. — Eu não aceitarei ser colocada em um quarto em qualquer lugar perto desta garota que cheira a lama!
— Ahhh, peço sinceras desculpas por minha falta de sensibilidade. Prepararei um quarto para ela o mais longe possível do seu…
— Senhor diretor! Até mesmo um quarto comum é inadequado para esta garota! Eu me sentiria simplesmente péssima por qualquer pessoa obrigada a viver com ela.
Quando Isabelle inclinou o leque e começou a fingir chorar, o diretor acelerou consideravelmente o movimento das mãos. Esfregando as palmas uma na outra num gesto de servilismo, ele disse em tom apaziguador:
— N-nesse caso, o que gostaria que eu fizesse…?
Por trás do leque, Isabelle deixou escapar um sorriso. Agora tinha certeza de sua vitória. Então ergueu os olhos para Monica, que mantinha a cabeça baixa atrás do sofá, e disse em uma voz maldosa:
— Ora, um quarto no sótão é bom o bastante para alguém como você… Não é?
Tremendo, Monica conseguiu assentir. Isabelle voltou-se para o diretor e garantiu:
— Como pode ver, ela concorda.
— Um quarto no sótão…? — repetiu o diretor, soando avesso à ideia.
Provavelmente, ele se preocupava mais com a reputação da academia do que com Monica.
Isabelle lançou-lhe um olhar cortante.
— Não está disponível? Nesse caso, um estábulo serviria.
— Não, não. Mandaremos levar uma cama até o quarto no sótão. Sim, sim.
Enquanto o diretor desviava o olhar, Isabelle piscou para Monica. Monica ficou completamente pasma com aquela resolução habilidosa ao estilo de uma vilã.
V-vilãs são incríveis…
Mas não eram as vilãs que eram incríveis. Era Isabelle.
Depois de deixar a sala do diretor, Monica soltou um suspiro de alívio.
O quarto no sótão ficava acima do depósito, no último andar dos dormitórios estudantis, em um piso diferente de todos os outros alunos. Um tratamento assim talvez reduzisse uma verdadeira jovem nobre às lágrimas, mas Monica se sentia imensamente grata por ele.
— E-eu, hum, Lady Isabelle… O-obrig…
Enquanto Monica tentava murmurar um agradecimento, os olhos de Isabelle de repente ficaram úmidos. Em choque, Monica a encarou em pânico.
— H-hum, Lady Isabelle?
— Ahhh… Se ao menos pudéssemos ter sido colegas de quarto! Poderíamos organizar chás secretos no meio da noite, ou nos enfiar debaixo das cobertas e compartilhar segredos! Mas… mas eu não posso me permitir atrapalhar sua missão! Eu compreendo perfeitamente!
Depois de enxugar os olhos com um lenço, Isabelle passou os braços ao redor de Monica, que ficou desconcertada, e se agarrou à nuca dela.
— Minha irmã! Se algum dia tiver tempo livre, por favor, por favor, venha visitar meu quarto! Farei o máximo para recebê-la muito bem!
— T-tudo bem… — disse Monica, assentindo de forma rígida.
Isabelle percebeu de repente o que estava fazendo e se recompôs.
Elas podiam ouvir vozes vindas da esquina do corredor. A cerimônia de entrada só aconteceria no dia seguinte, mas alguns professores e alunos envolvidos em atividades de clubes já circulavam pela escola. Assim, não era estranho esbarrar em alguém. A conversa que ouviam, porém, era certamente incomum.
— Droga! Me soltem! Me soltem! Eu não fiz nada de errado!
— Cale a boca de uma vez! Ou congelo sua boca também!
— Acalme-se, Cyril Ashley.
— É, Cyril. Você está fazendo ainda mais barulho que ele.
Da esquina surgiram três estudantes do sexo masculino e um jovem professor.
Um estudante de cabelos negros gritava para ser solto, enquanto os outros três o continham, aparentemente tentando levá-lo a algum lugar.
Isabelle sussurrou para Monica em voz baixa, para que apenas ela pudesse ouvir:
— Aquele jovem de cabelos negros… Deve ser Lorde Aaron O’Brien da Casa Steil. Já o vi antes em eventos sociais.
Aaron era um rapaz bem alto, e os outros três tinham dificuldade em contê-lo, apesar de serem maioria.
Isabelle tirou o leque e cobriu a boca com suavidade.
— …O garoto de cabelos castanhos é Elliott Howard, da Casa Dasvy. Não conheço o de cabelos prateados, mas, como ele usa o emblema do conselho estudantil, deve ser de uma casa de elite também.
Entendi, pensou Monica. Como Isabelle apontara, os três estudantes usavam pequenos emblemas na lapela.
Isabelle tinha boa memória e olhos aguçados. A forma como se lembrara dos nomes tão depressa e notara os broches de lapela era brilhante.
Monica lançou um olhar furtivo para ela, admirada. Ela não seria muito melhor em infiltração do que eu?, perguntou-se.
Enquanto isso, o grupo barulhento dos quatro começou a seguir na direção delas, então Isabelle e Monica se moveram rapidamente para junto da parede, abrindo passagem.
O garoto de cabelos castanhos e olhos caídos, Elliott Howard, olhou para elas e ergueu a mão casualmente.
— Desculpem o barulho.
Mas, nesse instante, Aaron, o rapaz de cabelos negros que estava sendo contido pelos outros três, olhou para as duas garotas com olhos injetados e gritou:
— Ei! Ei, vocês duas, digam alguma coisa! Estão me enganando! Eu não… eu não lembro, não lembro, não sei, não consigo recordar… Aaaaaah…!
— Quieto de uma vez! Feche essa boca! — rugiu o jovem de cabelos prateados, com veias saltando nas têmporas.
Então ele murmurou algo rapidamente.
O murmúrio fez Monica erguer a cabeça. Era um encantamento.
E encurtado, ainda por cima…!
O rapaz de cabelos prateados teceu seu feitiço em metade do tempo de um encantamento normal e então estalou os dedos. Os pulsos de Aaron, que se debatiam, congelaram juntos como algemas. Em seguida, o jovem de cabelos prateados produziu um pequeno fragmento de gelo na palma da mão e o enfiou na boca de Aaron, segurando-o ali.
Quando o fragmento de gelo foi empurrado para dentro de sua boca, os olhos de Aaron se arregalaram, e ele gritou sem voz.
— Hmph. Espero que isso esfrie um pouco essa cabeça — rosnou o jovem de cabelos prateados, com desdém.
Elliott, de olhos caídos, olhou para ele com exasperação.
— Cyril, sabia que todas as garotas chamam você de Herdeiro Gélido?
— O que isso deveria significar?
— É o nome de um personagem de um romance popular na capital. Aparentemente, ele é maravilhosamente frio e controlado. Por que não se esforça um pouco mais para corresponder às expectativas delas, hm?
— Não compreendo. Estou sempre calmo.
— …
Elliott apenas deu de ombros para Cyril, o jovem de cabelos prateados.
Por fim, o professor se dirigiu aos dois e disse:
— Vamos andando.
— Sim, professor Thornlee — respondeu Elliott sem contestar.
Cyril olhou para Isabelle e Monica e ofereceu um breve pedido de desculpas. Então os três arrastaram Aaron para longe.
Quando os quatro sumiram de vista, Isabelle quebrou o silêncio.
— Será que aconteceu alguma coisa no conselho estudantil?
Falando no conselho estudantil, seu presidente era o alvo da missão de Monica: o segundo príncipe, Felix Arc Ridill. Se houvera um incidente no conselho estudantil, então Monica, como sua guarda-costas, precisaria saber dos detalhes.
Nããão… Acabei de ser transferida e já sinto que as coisas estão ficando complicadas…
Refletindo sobre aquele encontro turbulento com os membros do conselho, Monica levou a mão ao estômago e soltou um pequeno gemido.
O quarto no sótão dado a Monica revelou-se muito mais limpo do que ela esperava. O diretor provavelmente havia providenciado isso. O cômodo continha uma cama pequena e simples e uma escrivaninha para estudos, mais do que suficiente para Monica.
Ela abriu a janela para arejar o quarto e então abriu sua mala de viagem.
— Nero, pode sair agora… Nero?
Ela despejou o conteúdo da mala sobre a cama, fazendo Nero rolar para fora também.
— Miaaaahhh… — Ele fez um som entre um bocejo e um miado. — Hm? O que é isso? Já chegamos?
— Mm-hmm. Você dormiu esse tempo todo?
— Sim. Eu consigo dormir quando e onde quiser. Incrível, não é? — gabou-se ele.
— Claro — disse Monica, distraída, enquanto pegava a cafeteira de cima da cama.
A escrivaninha que vinha com o quarto tinha várias gavetas pequenas. A mais baixa podia ser trancada, então foi ali que ela colocou a cafeteira.
Apesar de ser uma das maiores magas do reino, Monica tinha pouquíssimos pertences com os quais realmente se importava. Aquela cafeteira, lembrança de seu pai, era muito mais importante para ela do que seu cajado dourado ou o anel e o manto que simbolizavam o título nobiliárquico recebido quando se tornara Sábia.
A cafeteira era seu único tesouro. Ela não conseguia pensar em nenhum outro.
Nero bocejou e ergueu os olhos para ela de cima da cama depois que Monica trancou a gaveta.
— Então, como é a vida escolar?
— Hum, disseram que as aulas começam amanhã…
A partir do dia seguinte, ela entraria na Academia Serendia como aluna do segundo ano do curso avançado. E faria isso como Monica Norton, não como Monica Everett, a Bruxa Silenciosa. Sua expressão escureceu ao recordar seus dias no Instituto Minerva de Formação de Magos. Para alguém tão tímida quanto ela, a convivência escolar era puro sofrimento. Durante a segunda metade de seu tempo em Minerva, ela praticamente se trancara no laboratório.
— …Ugh. Só de imaginar, meu estômago já dói…
O motivo de Monica estar ali era proteger secretamente o segundo príncipe. Mas, antes mesmo de pensar na missão, para não chamar atenção, ela teria que viver como estudante. O que, para Monica, seria difícil.
— Ah, não esquenta com coisa pequena. Tenta se divertir um pouco. Vida de academia não parece divertida?
— …Você só diz isso porque não sabe como é assustador…
— Se parecer que alguém vai descobrir seu segredo, é só usar artes mágicas para resolver, certo? Moleza. Você é uma maga incrível, então… tipo, não poderia simplesmente controlar ou alterar as memórias de qualquer um que descobrisse quem você é?
Nero podia ser despreocupado porque conhecia muito pouco dos assuntos humanos. Monica balançou a cabeça, com uma expressão sombria no rosto.
— Na verdade, qualquer uso de artes mágicas que interfira na mente humana, como manipular alguém ou reescrever memórias, é proibido… Se eu usasse isso em alguém sem permissão, tomariam minha certificação de mago…
As artes mágicas que interferiam na mente ou no estado mental de alguém só eram permitidas em circunstâncias muito especiais, como ao extrair confissões de criminosos. Pesquisar o assunto era permitido, e Monica já havia lido um ou dois livros sobre ele. No entanto, embora pudesse usar feitiços assim se quisesse, ela não tinha nenhuma vontade especial de fazê-lo.
— Feitiços desse tipo são muito difíceis de controlar. Às vezes as pessoas desenvolvem efeitos colaterais, como problemas de memória ou confusão mental… E ouvi dizer que, se der muito errado, elas podem nunca mais recuperar a consciência.
— Quê? Isso é apavorante.
— Mm-hmm. Por isso não dá para usar por qualquer motivo.
De repente, Monica se lembrou de Aaron O’Brien, um dos estudantes que haviam cruzado com elas mais cedo. Ele estava confuso, dizendo que não sabia, não lembrava e assim por diante. Aquilo soava muito parecido com os sintomas de alguém cuja mente havia sido afetada por artes mágicas.
…Não, não pode ser, pensou Monica antes de balançar a cabeça e voltar o foco para os preparativos do dia seguinte.
— Humanos têm uma vida complicada mesmo, hein? — disse Nero, os bigodes balançando para cima e para baixo.
— É. Eu queria poder ser uma gata… — murmurou Monica, com uma risada seca.
Nero estreitou os olhos dourados e a encarou.
— Já ouviu falar na lei do mais forte? Para gatos, é ainda pior do que para dragões. Posso garantir: se você virasse uma gata, um corvo te bicaria até a morte em questão de minutos.
— …Haah.
Ela não tinha resposta para aquilo. Anterior Próximo 🛒
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